Existir, resistir e ousar na educação: comemoração do centenário de Paulo Freire

Loss, Adriana Salete ; Rosa, Maria Geralda Oliver (2022)

livro

Nós, Adriana Salete Loss, da Universidade Federal da Fronteira Sul e Maria Geralda Oliver Rosa, do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), em comemoração ao centenário de Paulo Freire organizamos uma série de lives com pesquisadores de diferentes instituições do Ensino Superior a partir de diversos temas em diálogo ao pensamento revolucionário desse educador. Assim, por meio dos nossos grupos de pesquisas: Políticas de Formação Docente na concepção freiriana (PFDF) do Ifes – campus Vila Velha, e Educação Popular na Universidade (GRUPEPU) e Educação Emocional (GRUPEE) da UFFS – campus Erechim, promovemos encontros dialógicos acerca do legado de Freire. As lives, com as conferências, ocorreram de agosto a outubro de 2021, objetivando brindar o centenário de aniversário de Paulo Freire. Os(as) conferencistas foram convidados(as) a traduzir suas falas em um texto para socialização com educadores(as) e pesquisadores(as) acerca do pensamento de Paulo Freire, resultando, assim, na presente obra, Existir, resistir e ousar na educação: comemoração do centenário de Paulo Freire, organizada em cinco capítulos. No primeiro capítulo, intitulado “Paulo Freire e os estudos decoloniais”, Manuel Tavares explicita que comemorar o centenário do nascimento de Paulo Freire é, para quem se dedica à educação, uma tarefa cotidiana. Neste texto, o autor parte de alguns pressupostos que guiam o seu raciocínio e que constituem argumentos fortes para sustentar a tese que tem defendido: o pensamento de Paulo Freire enquadra-se nas perspectivas de¬coloniais e a sua proposta pedagógica – a pedagogia do oprimido – é uma estratégia que visa a decolonialidade nas suas múltiplas dimensões. Argumenta o autor que o primeiro pressuposto é o de que o colonialismo não terminou com a descolonização, mas teve continuidade por intermédio dos colonialismos internos, ou seja, após a descolonização (entrega das colônias por parte dos colonizadores) as diversas elites tomaram conta do poder e continuaram subjugando o seu povo; o segundo pressuposto é o de que a globalização é uma forma de colonialidade global pela imposição de uma cultura e de uma única representação da realidade e considerando o conhecimento científico como único conhecimento válido e verdadeiro; o terceiro pressuposto é o de que a educação é o espaço privilegiado, quer para a reprodução e perpetuação da colonialidade, quer para a decolonialidade. A partir destes pressupostos conclui o autor que o pensamento de Paulo Frei¬re se enquadra numa perspectiva decolonial, promovendo a emancipação dos que historicamente foram e são oprimidos. O texto “Base Nacional Comum: a formação de professores em face da autonomia freireana” é o segundo capítulo, em que os autores Teodoro Adriano Costa Zanardi e Viviane Augusta Ramos Dias Pascoal propõem¬-se a analisar a Base Nacional Comum para a Formação de Professores e a sua vinculação com a Base Nacional Comum Curricular da Educação Básica a partir do conceito de autonomia desenvolvido por Paulo Freire. O conceito de autonomia é desenvolvido em suas relações com o trabalho educativo docente. Por meio de uma abordagem qualitativa, há um investimento no levantamento de documentos e uma imersão no pensamento freireano como forma de contribuir para uma análise crítica da concepção de currículo desenvolvida pela política de bases legitimadas pela Lei de Di¬retrizes e Bases da Educação Nacional e pelo Plano Nacional de Educação de 2014. A partir da análise dos documentos e da concepção de autonomia em Freire, é possível apontar que as novas políticas curriculares são inibidoras da autonomia, sendo a defesa do currículo como práxis uma perspectiva para a resistência da prática educativa como prática de liberdade. O capítulo intitulado “Pedagogia dos oprimidos” é o terceiro texto da obra, em que a autora, Sandra Pereira Tosta, faz um resgate do pensamento educacional de Paulo Freire numa perspectiva antropológica. O estudo tem como referência central a obra Pedagogia do oprimido, por considerá-la totêmica, fundadora do pensamento do autor e uma das mais acessadas no mundo. A autora destaca a importância de Freire em sua formação e recupera o contexto histórico em que o autor está situado e como seu pensamento se articula a outros movimentos dos anos de 1960, nos campos da política, da cultura, das artes, da comunicação e da educação popular e crítica, em oposição à educação bancária, historicamente hegemônica no país. O texto faz uma incursão pelas ideias centrais da educação libertadora defendida por Paulo Freire e traz alguns de seus princípios filosóficos, como a dialogicidade, mostrando a atualidade (e necessidade) radical de uma rigorosa releitura das obras freireanas em vista da superação dos de¬safios que a educação escolar e não escolar impõem no tempo presente, em relação, principalmente, à persistente exclusão e marginalização dos pobres, pretos e oprimidos, dentre outras camadas da população. O quarto texto, dos autores Jonas Antônio Bertolassi, Gabriele Ma¬rina Bertolassi e Natasha da Cruz Barros, intitula-se “As contribuições da teoria freireana nos processos de humanização das relações humanas. Conforme os autores, Freire (1997) apresenta que humanizar é o processo permanente do homem para tornar-se humano, tendo como base os prismas da moral, da ética e da afetividade. Partindo desses princípios, o estudo objetiva apresentar os principais contributos da teoria freireana na (re)construção da humanização das relações humanas, utilizando para tal as obras clássicas de Paulo Freire como: Pedagogia do oprimido e Pedagogia da esperança, entre outras. Os resultados do trabalho apontam que a pedagogia freireana, além de propor uma pedagogia crítica e reflexiva, tem suas bases em uma visão humanística do ser, enquanto sujeito histórico, social e, sobretudo, humano, especificidades que contribuem positivamente no processo de humanização. Por fim, conclui-se que as contribuições mais significativas da teoria freireana em relação à humanização das relações humanas estão voltadas para a construção da criticidade intrapessoal e interpessoal. Além disso, tal teoria classifica a prática educacional como antropológica, em que a base da construção do conhecimento está no eu e no outro. A fusão desses dois aspectos torna os sujeitos mais sensíveis a compreender o próximo como um ser singular, de modo a ressignificar suas próprias singularidades, movimento que possibilita o processo e a humanização. Por fim, como quinto e último capítulo, intitulado “Experiências ‘trans’ formativas no ensino superior em tempos de pandemia: contributos de Paulo Freire”, as autoras Adriana Salete Loss, Chaiane Maria Brum e Maria Geralda Oliver Rosa apresentam resultados de uma pesquisa acerca das experiências de professores e estudantes no ensino superior em tempos do ensino remoto. O estudo teve como objetivo investigar e identificar junto a professores e estudantes da Universidade Federal da Fronteira Sul (Brasil), campus Erechim/RS, suas percepções acerca das experiências emocionais, formativas e profissionais na modalidade do ensino virtual. A coleta dos dados deu-se mediante a aplicação de questões endereçadas aos correios eletrônicos dos participantes. Para a análise dos dados optou-se pela análise de conteúdo, conforme Bardin (1977). O estudo revelou sobre a necessidade de uma pedagogia da escuta sensível no contexto educacional, de modo a gerar uma rede de comunicação passível de ir além dos conteúdos acadêmicos, de voltar-se para as dimensões pessoais e sociais dos sujeitos em seus processos formativos. Assim, o texto traz o desafio da formação continuada com foco na escuta sensível frente às demandas do ensino na contemporaneidade e apresenta uma leitura da realidade a partir da leitura da palavra de Paulo Freire. Registramos ao leitor que, dos diálogos virtuais em 2021, cada conferencista deixa algumas palavras sobre o nosso amigo e educador Paulo Frei¬re, para refletirmos e ousarmos combater o sistema neoliberal, transgredir o pensamento da racionalidade instrumental e transformar a educação em ação libertadora das cegueiras que perpassam a sociedade capitalista. Ainda, esclarecemos que nesta obra o leitor irá observar que os(as) autores(as) apresentam ora o termo freireano(a) e ora freiriano(a), seguindo a opção de escrita de cada autor(a). Desejamos uma boa leitura e que ela permita continuarmos firmes na luta contra tudo o que oprime.


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