Uma Eva diferente: experiências e trajetórias evangélicas de mulheres trans

Quintela, Hugo Felipe (2020)

Tese de doutorado

RESUMO: A partir de uma abordagem antropológica, buscou-se compreender as experiências e trajetórias evangélicas de mulheres trans em comunidades religiosas evangélicas em suas versões convencional e inclusiva. Entre 2016 a 2019, no eixo Grande Vitória – ES e São Paulo, foram entrevistadas, formalmente, com roteiro inicial semiestruturado e gravação de áudio, quinze mulheres trans e, de maneira menos formal, outras quatro, sendo que todas elas se identificavam ou já haviam se identificado como evangélicas. Com algumas das interlocutoras, o contato aconteceu apenas uma única vez; já com outras, ele foi mais intenso, com a participação em seus cotidianos, no qual os encontros deixaram de ter apenas um caráter de entrevista e passaram para uma dimensão mais de conversa e até mesmo de confidências. Contudo, o recorte central deste trabalho tem como lócus privilegiado os relatos biográficos e os testemunhos de vida de, especialmente, cinco mulheres trans – Crislaine, Mary, Mel, Jacque e Alexya –, com destaque para seus momentos de adesão às igrejas evangélicas. A ênfase em suas histórias de vida é uma tentativa de refletir acerca disso por meio da noção de trajetórias modelares, de Perlongher (1987). Numa perspectiva interacionista e considerando a heterogeneidade que caracteriza o campo evangélico brasileiro, a intenção foi, antes de tudo, buscar uma compreensão que entenda a elaboração das trajetórias como um processo dialógico imbricado ao fazer etnográfico. Para tanto, destacou-se a complexidade de cada narrativa biográfica presente neste trabalho, tendo sempre como foco as estratégias particulares de negociação e elaboração da adesão religiosa evangélica, atrelada a uma identidade de gênero entendida como dissidente, a fim de apreendermos, mesmo que em partes, formas de ser e de viver uma experiência gênero-religiosa tão específica. A partir dos relatos biográficos evidenciados, nota-se que as experiências e trajetórias evangélicas de mulheres trans, ao se inserirem em contextos evangélicos - sejam eles convencionais ou inclusivos -, colocam em xeque a homogeneidade que o discurso cristão tenta produzir nas práticas religiosas daqueles que o adotam. São mulheres que confrontam essa cena religiosa com a diferença. Elas desestabilizam o que parece fixo e hermético e, ao fazerem isso, revelam brechas entre o dizer e o fazer institucional e as múltiplas formas de se habitar as normas e por entre elas.

ABSTRACT: Starting from an anthropological approach, we sought to understand the evangelical experiences and trajectories of trans women in evangelical religious communities in their conventional and inclusive versions. Between 2016 and 2019, in the Grande Vitória - ES and São Paulo axis, fifteen trans women were formally interviewed with semi-structured initial script and audio recording, and four other trans women contributed to the research. They all identified or had already identified themselves as evangelical. With some of the interlocutors, the contact happened only once; with others, it was more intense, with participation in their daily lives - the meetings were no longer just an interview character but moved to a dimension of conversation and even confidentiality. However, the central focus of this work has the biographical accounts and life testimonies of especially five trans women - Crislaine, Mary, Mel, Jacque and Alexya - as a privileged locus, highlighting their moments of joining the evangelical churches. The emphasis on their life stories is an attempt to reflect on this through Perlongher's (1987) notion of model trajectories. From an interactionist perspective and considering the heterogeneity that characterizes the Brazilian evangelical field, the intention was, above all, to seek an understanding of the elaboration of trajectories as a dialogic process imbricated with ethnography. To this end, the complexity of each biographical narrative present in this work was highlighted. The focus is on individual strategies of negotiation and elaboration of evangelical religious adherence linked to a gender identity understood as dissident. The intention was to grasp, even if in part, ways of being and living such a specific gender-religious experience. From the evidenced biographical accounts, it is noted that the experiences and evangelical trajectories of trans women, when inserted in evangelical contexts - whether conventional or inclusive - put in question the homogeneity that Christian discourse tries to produce in the religious practices of those who follow it. They are women who confront this religious scene with the difference. They destabilize what seems fixed and airtight and, in doing so, they reveal gaps between institutional saying and doing and the multiple ways of inhabiting norms and dwelling among them.


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